terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A fonte do templo


A FONTE DO TEMPLO

(Baseado em Ezequiel 47, 1-12)

Por Giovanni Colares

              “Na Igreja tem lugar sempre uma luta entre o deserto e o jardim, entre o pecado que resseca a terra e a graça que a rega para que produza frutos abundantes de santidade.”

              (Papa Bento XVI, na oração mariana do Ângelus, em 06/12/2009).

O Ser Humano vem da própria fonte de Deus, templo eterno que é o nascedouro de tudo o que há na criação (Cf. Gn 1, 26-27). No livro do gênesis - que abre o nosso coração para o caminho de salvação da humanidade - inicia-se o relato sobre a aridez humana, pela fuga do plano de unidade e plenitude fundado por Deus no coração do homem, resultado da inquietude e da curiosidade, bem como pela decisão própria que atende ao princípio do Livre Arbítrio: graça de Deus que espelha a própria liberdade divina transferida ao homem, que é, em primeira e última instância, reflexo direto do criador na criatura tão especial que foi feita “à imagem e semelhança” dele próprio (Cf. Gn 1, 26a).

Sabemos que não há uma correnteza de água se não houver duas características primordiais e próprias da dinâmica da natureza: a diferença (de altura) e o movimento. No rio de água há uma fonte que brota no alto, em potencial maior do que aquele lugar a que se destina (o lago ou o mar nível abaixo) e assim gera o segundo fator: o movimento.

O descer (que é um movimento de um nível mais alto - de maior energia - para um mais baixo - de menor energia –, portanto) causa como que um despojamento, pois uma porção de água que abandona o mais alto decresce em energia potencial e – muitas vezes – empresta ou perde energia para outros processos, que é exatamente o que acontece nas quedas de água que são aproveitadas para a conversão de energia cinética para elétrica (usinas hidrelétricas), por exemplo. Assim, há um doar-se das águas para encontrar a sua condição final, no mais baixo (como que o mais humilde) lugar, fazendo do caminho uma busca por esta estabilidade, como aconteceu com a própria prepotência humana de Adão e de Eva que se alçaram tão pretensamente em alta condição - por si mesmos -, mas que ali – apesar de colocados na aridez do deserto de si próprios (expulsão do Paraíso) – começam a caminhar (derramando-se em evolução) rumo à salvação (para um futuro resgate).

Este rio começa provavelmente com água (lágrima de Adão e Eva) e certamente com sangue (Abel sangra e derrama-se em sua vida material por ter expressado seu amor a Deus de maneira mais autêntica e fervorosa); em muitas vezes é feito com sacrifícios, com tantos pés sangrando no caminho, por profetas ameaçados e seguidores ceifados (como João Batista), depois pelo próprio Cristo, presença de Deus na terra, o Deus-conosco, e em unidade (no corpo da própria Igreja) prosseguido por tantos cristãos que deram – e continuam dando - o testemunho, ao extremo, com a própria vida em defesa da mensagem que se encerra na boa nova e que tanto incomoda os que não querem a luz...

O rio que jorra “da porta oriental do tempo”, aquela destinada ao próprio Senhor, como nos alerta anteriormente o próprio Ezequiel (44, 2), é também o próprio Senhor que se derrama por nós (Jo 19, 34), Ele é o templo perfeito, o próprio rio, a fonte e o mar em unidade e movimento (pois a própria vinda do messias fez-se por um movimento e fruto da trindade santa: na doação do Pai pelo Filho e na aceitação do Filho com o Pai em Sua missão, tudo em movimentação pelo sopro de vida do Espírito Santo).

Este mesmo rio nos é apresentado no final da bíblia, bem como desde o começo, também. Há em Gênesis um rio que se distribui em quatro braços e que formam uma cruz (Gn 2, 10-14) e já nos chama a meditar sobre a cruz do Senhor, com um ponto de encontro (onde se cruzam o horizontal – humano – e o vertical – divino) e naquele rio do paraíso primordial é há a própria fonte que se derrama, como o encontro da verticalidade e da horizontalidade da cruz que nos lembra o encontro da misericórdia de Deus com o sofrimento humano: experiência profunda de ser indivíduo em unidade (experiência) com o Todo (união de realidades distintas). Já nas últimas páginas do livro sagrado, no Apocalipse, este rio é água de vida, que banhará o jardim recuperado (Ap 22, 1-5), é a própria imagem da plenitude humana em unidade com o Criador, é o prêmio do cristão que persevera, do que crê e confia na misericordiosa indicação e ação de Deus, pois, como nos lembra o salmista o que assim procede “[...] é como árvore plantada junto d’água corrente: dá fruto no tempo devido, e suas folhas nunca murcham. Tudo o que ele faz é bem sucedido” (Sl 1,3).

Ora, se aquele rio encontra o mesmo paraíso de onde tudo começou: então faz um movimento de circulariedade e volta à origem? Ou é vencida a força da gravidade de tal modo que o rio teria subido para encontrar de novo a fonte originária? Nem uma nem outra hipótese deve nos atar o raciocínio na mente ou nos atordoar a emoção no dentro do coração. Havemos de contar que o fator de um fluxo qualquer (como o do rio) põe o movimento como situação derivada do espaço e do tempo; é bom lembrar que em Deus, sob profundo mistério, ocultam-se o Infinito e a Eternidade nas dimensões reveladas do que conhecemos como espaço e tempo, respectivamente...

O rio não precisa dar a volta e subir para encontrar a fonte, pois no oculto do espaço por onde ele passa – em qualquer momento – há a presença oculta da própria fonte que se esconde no espaço, assim – também -, quanto ao fator do tempo, o agora contém em suas dobras (escondidas) a própria presença do momento da criação, é o agora que contém oculto o “desde sempre” e pode atualizar toda a criação, desde o início!

Assim acontece em nossos corações. Se de um lado há um impulso de um querer voltar, muito mais deveríamos ir adiante para encontrar o que foi perdido, não retrocedendo, mas sempre na persistência do avançar para encontrar o que nos espera (a essência da esperança é esta mesmo) que está ali adiante; e isto é artigo da fé, que se une – também – com a outra força das virtudes teológicas: o amor, estas três (fé, esperança e caridade) são lugares concretos que nos atualiza em toda a potencialidade da existência como frutos da vontade divina (Cf. 1Cor 13, 13). É justamente assim que se abre, constante e infinitamente, a graça de Deus que se derrama por sobre nós, como a água e o sangue que banhou o chão inóspito (deserto, portanto) do monte calvário na cena e momento final da crucificação do Senhor. Aquele chão, onde permanecemos sempre com o olhar contemplativo (quer seja na alma contrita e sofredora da Mãe aos pés da cruz, ou ainda no coração repleto de ternura e dor do seguidor “muito amado”) é o lugar oferecido com toda a estrutura necessária para que possamos ali habitar como cristãos... E aquele fluxo inesperado (sangue e água que desce do lado – cf. Jo 19,34) rega e dá condição ao solo de ser construída a habitação para o cristianismo já previamente anunciado pelo salmista: “O correr das águas alegra a cidade de Deus, o Altíssimo consagra a sua moradia”. (Sl 46 /45, 5).

É assim que - estranhamente para alguns - o sofrimento do cristão é reforço e que o caminhar constante permite o encontro tão necessário com a graça de Deus em algum lugar e momento em que (por meio da oração e da dedicação às coisas de Deus) o crente descobre um “onde” mais profundo que é de encontro, não apenas como aquele que ocorre no encontrar de duas coisas (coincidência de tempo e lugar), mas do experimentar existencial verdadeiro com Deus. É, certamente, este sentimento que se instala no coração do que crê e dá um sentido à sua caminhada, sem que estanque ou recue no caminho, sem que busque uma fuga ou mesmo queira retroceder (olhar para trás) em seu viver. Como que transformando o medo em uma coragem de avançar adiante, trocando alguma rejeição pelo abraço consolador do Deus presente “no meio de nós”, mudando seu sentimento de inferioridade para o de humildade e reconhecendo a grandeza de Deus presente na própria natureza de criatura, despojando-se da culpa pela aceitação da misericórdia plena dada aos que buscam e entregam-se à correção de situações geradas, e - finalmente - praticando de maneira contrita e verdadeira o perdão como parte integrante desta cura completa que se pode colher sob a graça da entrega na conversão.

A salvação toma em Ezequiel (assim como também com João na proclamação apocalíptica) um aspecto de Lugar: pois além de ser um momento da vida daquele que é salvo é também uma permanência, uma habitação, convite para a morada. No último capítulo daquele livro o profeta do antigo testamento, que nos conduziu pelo rio saído do templo, nos conduz à terra prometida como posse da libertação do povo e nos coloca em um lugar, com as portas bem definidas, que nos apresenta como uma cidade aberta para todos (para os quatro cantos do mundo, por assim dizer), também nomeia a cidade de “Javé está aí” (Javé-Chammá - Cf. Ezequiel 48, 35b.). O verbo “estar” é forte (em algumas línguas confunde-se com o verbo “ser”), é indicativo de presença viva (real, portanto) e é sinal que nos conduz a este lugar, ao espacial (corpo), ao acesso que se dá para todos, onde podemos habitar nos recebendo de braços abertos, como Jesus pregado na cruz, exposto aos quatro cantos do mundo, acessível a todos, jardim erguido sobre a aridez do chão do calvário.

“Javé está aí” não é apenas uma notícia, nem um aviso, antes é um convite que se faz: um lugar que se aponta e ao qual se destina aquele que realmente quer estar com Ele. É a fonte que se encontra a partir de qualquer braço do rio primordial do jardim da criação (aquele de Gn 2, 10-14), é Fator de Unidade também, pois: na cena apresentada por Ezequiel integra cidade e campo, permite uma quebra de uma rivalidade antiga; ou ainda no plano pessoal o que é antigo e novo, ou mesmo - ainda - o que é natural e artificial. O novo (que se construiu) abraça e recebe o que é antigo (original - o que já estava ali). É o fundamento da unidade em ação na desafiante diversidade de cada ser humano. O amplo das possibilidades é permitido e entregue à ação do que se quer - e se pode ser - na unidade com Deus: a cada um de nós é oferecida, na gratuidade da oferta divina, a completa salvação...

ORAÇÃO FINAL:

Conduze-me, ó Senhor, pelo caminho, dá-me firmeza no passo e certeza do encontro. Abri em minha alma, Deus Santo e Todo-Poderoso, a sensibilidade para sentir a Tua presença, mesmo em meio às minhas dificuldades e limitações humanas. Dá-me, Senhor nosso, as tão necessárias virtudes da Esperança, Fé e Caridade para que eu possa trilhar sempre um caminho de firmeza. Infunde e mantém em mim o espírito de profusão da tua palavra e faz-me sempre um seguidor – mesmo com tantos defeitos – do teu Amor que é preciso fluir em todos. Amém!

Meditação dada como fruto da oração (a partir da meditação de Ezequiel 47, 1-12) em 08 de dezembro de 2009, festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, mãe de Deus.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Evangelho: Mateus 7, 21.24-27

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus - Naquele tempo, 21Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 24Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. 26Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. 27Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína. - Palavra da salvação.



A CASA SOBRE A ROCHA

É muito evidente a palavra de hoje, explica-nos tudo. No entanto temos que lembrar que esta casa não é construída como uma habitação material, antes é um construir-se (ou, no gerúndio, um contruindo...).

Há várias manerias com as quais podemos e devemos fortificar as bases desta casa, a rocha se constitue de uma vida de oração e de constante busca do conhecimento de Deus, que não se faz tão somente pelo aprendizado, mas antes pela experiência em Deus.

Busquemos constantemente edificar a nossa vida no desenvolvimento espiritual, isto nos ajudará a superar todos os problemas que nos são oferecidos na vida e que servirão como provação de confirmação de nossa fé em Deus. Amém!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

SENTAR-SE NO CHÃO...

Evangelho: Mateus 15, 29-37


Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus - Naquele tempo, 29Jesus saiu daquela região e voltou para perto do mar da Galiléia. Subiu a uma colina e sentou-se ali. 30Então numerosa multidão aproximou-se dele, trazendo consigo mudos, cegos, coxos, aleijados e muitos outros enfermos. Puseram-nos aos seus pés e ele os curou, 31de sorte que o povo estava dmirado ante o espetáculo dos mudos que falavam, daqueles aleijados curados, de coxos que andavam, dos cegos que viam; e glorificavam ao Deus de Israel. 32Jesus, porém, reuniu os seus discípulos e disse-lhes: Tenho piedade esta multidão: eis que há três dias está perto de mim e não tem nada para comer. Não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho. 33Disseram-lhe os discípulos: De que maneira procuraremos neste lugar deserto pão bastante para saciar tal multidão?34Pergunta-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Sete, e alguns peixinhos, responderam eles. 35Mandou, então, a multidão assentar-se no chão, 36tomou os sete pães e os peixes e abençoou-os. Depois os partiu e os deu aos discípulos, que os distribuíram à multidão. 37Todos comeram e ficaram saciados, e, dos pedaços que restaram, encheram sete cestos.

SENTAR-SE NO CHÃO...


Sempre me chama a atenção alguns detalhes no evangelho. Neste trecho salta-me a atenção para o fato de que Jesus manda a multidão assentar-se no chão... Creio que isto nos remete a dois pensamentos: o primeiro é o próprio substantivo, o chão. Há dois aspectos a se pensar, o da humildade e ao mesmo tempo da segurança, estar em um nível mais baixo reflete uma estabilidade e conforto, também - tanto no aspecto da humildade e da estabilidade - há o sinal da fé. Não podemos viver bem a nossa fé se estamos agitados, principalmente em grupo (como naquela multidão...), é preciso abaixar-se, estar mais perto da própria humanidade. O segundo é o verbo, o sentar.

Sempre que pedimos algo a Deus (ou mesmo se não pedimos, mas precisamos), é preciso fazer alguma coisa, nem que seja um "sentar-se", um modo de agir (verbo, ação) pela fé e não por si só.

A multiplicação dos pães e peixes também nos lembra que Jesus não é um mágico, não faz as coisas do nada, mas a partir de algo que se tem produz mais. O número sete, a que se refere às sobras, é o da perfeição, pois passada a ação de Deus tudo fica perfeito, na completude.

Jesus fez tudo isto (ensinar o povo com gesto e saciar a cada um) para que não desfalecessem no caminho, pois ele quer que os membros do seu povo (ou seja: cada um de nós) continuem a caminhar!



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O “ESCONDE-ESCONDE” DE DEUS...

21Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado. 22Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 23E voltou-se para os seus discípulos, e disse: Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes, 24pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram.


O “ESCONDE-ESCONDE” DE DEUS...

Deus faz como a brincadeira de “esconde-esconde” conosco, mas não é por brincar ou desprezar a nossa inteligência, antes é uma oportunidade para nos aguçar o sentido (da fé)..



É neste sentido que Lucas nos apresenta um Jesus que agradece a Deus sobre o fato de esconder o mistério dos sábios e permitir (pelo sentido, pelo aguçamento da fé) que os pequenos possam saber de Deus bem melhor, pois podem reconhecer a beleza do oculto sem a angústia do precisar saber mais...
Estamos na espera, o que esperamos? Como o povo judeu queremos um Rei – portanto nascido nobre – que venha com o poder dos homens? Queremos o mágico senhor que surge do nada em um carro de fogo e que instantâneamente degola e trucida os inimigos e muda tudo sem que participemos de sua vitória? Ou queremos um Deus oculto que – surpresa! – descobriremos no mais fundo do nosso coração.



Olhemos para a cena do Natal, o pequeno ali no centro, todos convergendo para Ele. Humilde, em uma mangedoura (é um cocho, um tosco objeto que serve para alimentar os animais) sem conforto material, mas cercado de muito aconchego de seus pais, dos pastores e animais e – principalmente – dos anjos do céu a lhe glorificar antecipadamente.



Se, de um lado, a festa natalina nos atinge os olhos com tantas luzes e enfeites colocados em toda a cidade e em tantas casa (aspecto social), do outro é necessário que esteja bem escondido em nós (aspecto individual) como forma de se fazer um momento profundo e de não se perder a grande oportunidade do momento.



O momento, aliás, é sempre o grande presente entregue por Deus a cada um de nós, pois é o tempo cronológico (humano, no qual se desenvolve os fenômenos materiais) que se vive e que se encontra (quando sabemos orar, meditar, contemplar e amar) com o Eterno (kairós, o tempo de Deus.



Vamos pensar bem, entre um piscar e outro das pequenas lâmpadas que marca o pulsar do tempo, o que há? Escuridão? Não? Mas, o tempo oculto de Deus, a eternidade que se esconde entre um quando e outro.



Precisamos deixar em nossos corações – humildes como uma mangedoura de Natal – que este mistério se apresente (venha, o sentido do Advento) e que possamos sentir (a religião é sempre uma oportunidade para os sentidos) em cada um de nós o nascer deste que é o Rei dos reis, que é o nosso único e verdadeiro Salvador!